Imperfeito

Postado em Críticas, Filosofia de Buteco em abril 10th, 2011 por Rafael

Estou lendo agora o Criação Imperfeita, do Marcelo Gleiser. Comecei com uma certa descrença, mas o livro é bem legal, gostei do jeito que ele escreve. Só achei que pra explicar a “bariogênese na transição de fase eletrofraca” ele usa uma metáfora meio tosca.

Ainda quero entender mais o ponto de vista dele, mas de certa forma eu até concordo. O que me incomoda um pouco são as críticas a um ideal de beleza e a Deus. Para mim, ele entra raso demais na questão “Deus” -não me parece satisfatório- e acho que a estética que ele tanto critica não é tão óbvia para o leitor comum, talvez para os cientistas. Claro que eu entendo que para uma grande parcela da população simetria = beleza = verdade = Deus = entidade consciente que arquiteta, orquestra, mantém e protege. Mas como para mim a equação não é tão simples, fico com a impressão de que esse tema aparece apenas para polemizar, meio Richard Dawkins.

Deixe-me tentar explicar o lance. Resumidamente o que acontece é que no começo do século os físicos começaram a estudar cada vez mais a física do muito pequeno (quântica, de partículas) por outro lado a física do muito grande (cosmologia) também fez avanços. Em certo ponto as duas se influenciam mutuamente, pois como já tratamos algumas vezes, padrões em escala influenciam eventos em escala macro. Além disso, pela teoria do Big Bang, o universo surgiu de eventos na escala micro, sendo necessária a compreensão da física de partículas associadas as leis da relatividade para entender seu desenvolvimento.

O Problema é que algumas mecânicas que funcionam em uma escala não servem para a outra, e a busca de alguns físicos tem sido encontrar uma Teoria da Unificação. Uma série de leis que sirvam para todas as escalas. Aí que começa o papo do “belo”, muitos acreditam que as leis precisam se unificar, mas movidos principalmente por um desejo “estético”, por achar que essa “falha” não é digna da Natureza. Vejamos a violação das simetrias. De certa forma, algumas operações físicas exibem um comportamento padrão, que permitiu aos cientistas, prever a existência de novas partículas. Tipo assim: uma partícula que tem certa carga, quando decair se transformará em duas partículas que somadas darão a carga inicial. Tomando isso como regra, os cientistas conseguem prever partículas que surgirão de uma determinada reação, mesmo que elas ainda não tenham sido descobertas. E em vários casos isso deu certo, foi o caso do Pósitron e de toda a antimatéria.

Nesse cenário é realmente difícil não ficar encantado com as possibilidades das simetrias. E aí sim o senso estético começa a falar mais alto. Assistam a esse vídeo do Garrett Lisi explicando a teoria de unificação dele. Cara, se um físico surfista que mora numa van e desenhou uma tabela periódica que lembra uma mandala tibetana estiver certo sobre a mecânica do universo, eu tatuo o E8 nas costas. (pessoas não copiem essa idéia, por favor haha e esperem pra ver se ele está certo antes!)

Difícil de engolir é que baseado nas simetrias, ele prevê a existência de mais 24 partículas novas! E tem sido difícil achar mesmo uma! Fazendo um paralelo com o Andar do Bêbado, penso sobre a nossa predisposição em identificar padrões. Tivemos até uma experiência no trabalho. Fizemos um jogo que tinha 4 bônus que apareciam aleatoriamente na sequência de perguntas. Como era de esperar, esses bônus tinham a mesma chance de aparecer que as outras perguntas, e por isso às vezes eles vinham em sequência mesmo, e isso não era desejável. Mesmo tendo feito o programa e sabendo que ele era randômico (até onde a função “random” permite) nós tivemos a impressão de que havia algo gerando um padrão. No caso do E8, minha preocupação é que parece que as falhas na simetria são indicadas pela visualização do gráfico de 8 eixos que Lisi cria com as partículas. Será que os dados realmente exibem esse padrão, ou a maneira que escolhemos para visualizá-los é que nos dá essa impressão?

Talvez ele até esteja certo, mas talvez nós nunca consigamos tecnologia suficiente para detectá-las, talvez as energias necessárias sejam próximas as de supernovas, coisa que seria impossível de rolar em laboratório.. sei lá, temos que ver o que vai sair do LHC. Enquanto isso vou lendo o resto do livro ^^ Tô de cara com um papo sobre quiralidade aqui…

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