DesCartes

Postado em ilustração, Making Of em setembro 15th, 2009 por Rafael

Falando com o Brunão da minha classe outro dia, ele reclamou sobre ter a idéia mas não conseguir definir o traço para o desenho. Por isso fiquei com vontade de voltar de novo à essa questão. Realmente acontece de você ter um conceito e imaginar como quer as coisas, mas conseguir fazer é outra história. Botar a caneta no papel e fazer sair o que você imaginou não é tão simples. E o pior é conseguir e ver que não é tão legal quanto na imaginação…Resolvi postar aqui alguns desenhos mais antigos do que os que estava falando até então, para ilustrar as mudanças que ocorreram e o processo extendido.

Lá no começo contei que finalizado o texto, defini uma idéia geral para as ilustrações ou imagens que ele deveria conter. Cheguei a pensar que em vez de desenhos poderiam ser fotos P&B e até perguntei para a Marina se ela não se interessaria em fazer umas. Mesmo assim resolvi fazer ilustrações com os mesmos temas. Na época, achava que os capítulos poderiam ser abertos com uma ilustração de página dupla. Seria algo como uma quebra no fluxo, um alívio e uma surpresa, mas só depois de fazer o primeiro flipbook é que percebi que o texto tinha capítulos muito pequenos. O alívio se tornaria repetitivo e impertinente.



Como dá pra perceber, a ilustração era meio arredondada, sem muito propósito, poderia ser desse livro como de qualquer outra coisa. Nessa época ainda não havia definido aqueles elementos-chave que definiriam as capitulares e o resto das ilustrações. Até o título/logo carecia dessas diretrizes.

Outra idéia que tentei foi a de escolher um hexagrama para cada página apartir do sentido geral dela (sentido geral de uma página é algo muito absurdo olhando agora). Partindo disso eu faria um sumi-e para cada hexagrama, abstraindo o sentido de cada trigrama e tentando ilustrar o sentido do hexa. Algo como:

Contemplação-formado por montanha em cima e lago em baixo= daí isso daria um desenho dessa cena. Acho que um dia ainda faço essa idéia, mas num projeto separado.(e quando os sumi-e ficarem bonitos!)

Após definir aquelas diretrizes, o que me ajudou a produzir foi fixá-las como um estilo meu, para isso, passei a desenhar aleatóriamente coisas que incorporassem os elementos. Como este pequeno desenho que fiz com meu amigo Betão/bonekrisnha.

E foi assim, rabiscando muito, produzindo e descartando, que fui fazendo um filtro, não só de qualidade, mas de coesão e coerência entre as partes do projeto.
Espero que tenha funcionado.

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Capitulares

Postado em ilustração, Making Of, Tipografia em agosto 31st, 2009 por Rafael

A definição desse conceito incentivou um longo tempo de pesquisa e produção. Eu já estudava essas coisas por vontade própria, mas utilizar isso para o projeto tornou a coisa mais interessante ainda. Após a capa, retomei as capitulares. Já postei isso antes, mas aqui fica mais contextualizado hehe.

Cada capítulo possui sua própria capitular, com um hexagrama do i-ching que representa o sentido geral do capítulo, além de outros elementos como runas nórdicas, hieroglifos maias ou egípcios, inscrições em sânscrito, e símbolos em geral que reforçam o sentido do hexagrama ou apontam para outros conteúdos do capítulo. Algumas letras como os Es, possuem um espaço grande vazio, que foi tomado com liberdade para um desenho mais livre.

Capitulares

Esse conceito também deveria ser aplicado às ilustrações do texto, mas como aplicar isso se mostrou muito mais difícil do que eu imaginava, o que levou a muitas ilustrações descartadas que provavelmente só vão figurar neste blog hehe, portanto fiquem ligados haha

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Evolução

Postado em ilustração, Making Of em agosto 26th, 2009 por Rafael

Para dar uma idéia de como a fixação de alguns elementos chave influenciou as ilustrações vou colocar as etapas pelas quais a capa passou hehe.

Como  mostrado, esse foi o primeiro esboço, bem livre, com uns abstratos e alguns simbolos batidões.

Primeiro esboço

Esse é o esboço reformado no ilustrator. Eu sou muito ruim no ilustrator, e era pior ainda na época,  isso fez sair um desenho que não tinha muita identificação comigo. Os abstratos que são mais a minha cara deram espaço para mais símbolos batidões…

Depois de definir aquelas diretrizes, defini as capitulares e reformulei a capa.

Essa é a versão ilustrator da capa e contra-carpa reestruturada com os elementos melhor definidos

Essa última eu gostei bastante, foi finalizada no começo desse ano e me fez achar que o livro estava pronto. Mas no fundo algo não batia bem, e resolvi falar com a Cássia, professora de tipografia da Lu, que trabalha com livros.

Aí mutou tudo de novo haha

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Elementos do Estilo pt2

Postado em ilustração, Making Of em agosto 24th, 2009 por Rafael

Foi durante o N Manaus, em 2008, que fixei pela primeira vez os elementos que comporiam a identidade visual do livro. Inspirado pelo Continente perdido de Mu, comecei a pesquisar mais sobre simbologias das culturas que me interessavam e que de alguma forma interpretavam o mundo de maneira parecida com a que eu interpreto no livro. Arranjei um outro livro, Deuses, Túmulos e Sábios -esse sim de arqueologia mesmo- que conta de uma maneira romanceada os grandes feitos da arqueologia.  Confesso que tudo isso até me tirou um pouco dos trilhos, mas eu tinha tempo suficiente para viajar.

Depois de estudar bastante, rabiscando num bloquinho, saiu a idéia de que o tal do padrão do “novo mito” que eu tinha escrito lá longe, no rabiscão do conceito original, poderia ser uma mestiçagem de vários signos antigos, que serviriam como uma história secreta, um código que decifrado, daria uma nova interpretação à algumas passagens do texto.

O legal é que eu fui anotando o que deveria juntar: ícones chineses, hindus e científicos que somados à mais alguns davam uma coisa muito Sun Ra! haha achei engraçado e saquei que aquilo fazia muito sentido, afinal, sempre me inspirei de alguma forma nele.

Assim, os desenhos foram tomando forma e mais coerência entre si. Mas ainda havia um grande percurso pela frente.

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Estilo dos Elementos

Postado em ilustração, Making Of em agosto 20th, 2009 por Rafael

Então eu tinha um texto e vontade de ilustrá-lo. Tinha uma idéia do aspecto geral que o visual dele deveria passar, mas ainda precisava definir elementos mais específicos, o traço, o acabamento, o peso, volume e principalmente os símbolos e signos. Toda produção capta símbolos ao seu redor e os mescla, resignificando-os, atualizando-os em algo novo. Ou seja, tudo que eu fizer vai ter cara de alguma coisa e vai se valer de elementos específicos que eu escolher usar. O que me faltava era escolher e definir esses elementos.

Eu já tinha uma idéia vaga de que deveria usar alguns elementos da cultura hindu, visto que me identifiquei muito com ela enquanto escrevia o texto, mas não queria só fazer uma decoração indiana no texto, queria algo mais. Aconteceu de, num certo dia, eu e a Lu irmos num sebo daqui de Bauru. Ela queria comprar um livro e eu entrei junto, nem ia levar nada, quando de repente ví lá no fundo um livro chamado O Continente Perdido de Mu! Tive que comprar haha! Mu era o nome de uma música do Sun Ra, que sempre me intrigou.

Foi essa razão que me levou a comprá-lo. Não sabia eu, porém, que no texto o autor, um coronel pseudo-arqueólogo discorre justamente sobre símbolos e signos de culturas ancestrais. O livro foi muito divertido de ler, o cara conta uma revisão maluca de toda a evolução da humanidade, apoiando suas teses na decifração de signos recorrentes em todas as culturas arcaicas, que seriam reminescencias de Mu.

O que importa para o projeto nisso, é a idéia de que elementos aparentemente decorativos -como se supunham os hieroglífos- podem esconder uma linguagem, muitas vezes intrincada, podendo inclusive, alterar totalmente a interpretação do contexto onde se insira. De certa forma isso ajudava a dar um propósito aos desenhos que gostaria de fazer. Como disse em algum outro post, o texto não necessita de ilustrações. Elas não precisam ser explicativas, e assim ganham a liberdade de contar uma história paralela ou indicar de certa maneira uma outra leitura para tudo aquilo.

Esse desenho aqui foi a primeira versão da capa (que passou por muitas mudanças). Ela foi feita num dia bem inspirado, escutando Sun Ra e deixando a mão fluir. Eu não pensei em muita coisa enqto fazia, mas nela dá pra perceber a falta de acerto no uso de signos: junto com os rabiscões abstratos tem um yin-yang, um Om, caneta e lápis, uma lótus estilizada, nuvenzinhas, hexagramas e etc. Eu gosto até hoje da disposição das coisas mas essa simbologia precisava ser revista.

Primeira Capa

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Tipografando pt2

Postado em Impresso, Making Of, Tipografia em agosto 13th, 2009 por Rafael

Dando continuidade ao post anterior, aviso que aquela proporção que aparece na imagem está passando por revisão.

Como eu disse, as proporções da página foram definidas a partir de uma melodia que eu fiz. O tom principal é o Cm, ou dó menor. O intervalo de 3ª menor, (-Mibemol), dá uma cara mais introspectiva e um pouco melancólica para a música. A mancha foi feita com o intervalo entre e o Sol, que dá a 5ª, que é um reforço do tom e está na proporção áurea. As linhas dentro das páginas duplas foram traçadas para encontrar os pontos e proporções áureas e assim encontrar o lugar para a mancha de texto,  as notas laterais, títulos correntes (que caíriam logo no começo) e notas de roda-pé.

Tudo isso parece muito legal, e é. Tanto que durou muito tempo. Mas o problema é que o intervalo de 3ª dá um livro largo. Irritantemente largo. Na proporção que eu fiz ele ficou com 16,3cm por 22,9cm. Ou seja, um pouquinho só maior que um A5. O formato do livro é legal, e serve tranquilamente para a internet, onde o livro abre fácil e muda de tamanho de acordo com a tela. Na mão a história muda um pouco.

As margens externas, onde vão os polegares, são maiores que o necessário, e as internas ficam próximas demais da espinha do livro. Além disso, por pouquinho ele não cabe nos meus bolsos hehe e um detalhe incomodativo é que para imprimir, eu tenho que pagar o preço de um A3 sendo que a maior parte dele é jogada fora.

Não tinha me dado conta disso até agora, justamente porque sempre que ia imprimir um boneco eu o redimensionava para caber em um A4. E é justamente o que estou tentando fazer agora. Redimensioná-lo tentando preservar essas proporções.

Pra quem tiver curiosidade de saber como a melodia soa, gravei um mp3 rapidinho. A proporção é baseada só no primeiro acorde, porque na verdade a música é modal, e varia bastante de tonalidade. Acho que assim como o texto, ela tem momentos mais sóbrios, momentos mais viajados/perdidos, e momentos afobados. Não reparem os errinhos, fazia um tempo que eu não tocava.

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Tipografando

Postado em Making Of, Tipografia em agosto 12th, 2009 por Rafael

Enquanto pensava nos temas para as ilustrações também me preocupava em formatar, diagramar, meu texto  que até então estava escrito no Word com Times New Roman. A primeira medida foi mandar o texto para uma revisão ortográfica, feita pela minha antiga professora de português, Rosana. Enquanto a revisão era feita, além de acrescentar mais coisas haha me dei conta de que a diagramação de um livro recorre a várias regras que eu não conhecia a não ser o que deduzia apartir da observação de outras obras.

Eu estou me formando em Produto, portanto não tive muitas dicas quanto à diagramação de coisa alguma. Como sempre desrespeitei essa divisão, resolvi correr atrás do tempo perdido. Minha idéia era consultar o Prof. Valério, especialista em tipografia da nossa Universidade. Isso se passou durante as férias de 2008, mas na volta às aulas recebi a notícia de que esse professor viera a falecer…

Apesar da perplexidade com o fato, meu instinto punk/do-it-yourself me fez aprender por conta própria.
Peguei com meu amigo Tutu (e mais tarde com a Lulu) o livro Elementos do Estilo Tipográfico. O livro dá uma boa aula de todos os detalhes aos quais os tipógrafos prestam atenção. Enquanto lia, ia tentando aplicar as idéias e fazendo modelos de páginas e manchas.

Aí também me deparei com necessidade de definir o estilo. Fiquei dividido entre fazer uma coisa bem “design” hehe bem inovadora, explorando os limites da tipografia, ou fazer uma coisa clássica, mostrando o domínio do “design invisível”. Fiquei com a segunda, primeiro por uma certa humildade, já que foi meu primeiro trabalho na área, segundo porque muita firula poderia prejudicar a atenção ao conteúdo em si.

Uma das coisas mais interessantes desse processo é que no livro citado, o autor compara um livro com uma composição, e a proporção entre largura e altura das páginas e manchas de texto com as proporções entre os tons em uma música. O que eu fiz? Peguei um violão e durante um tempo improvisei até sentir que toquei algo com a cara do livro (pelo menos a cara q ele tem pra mim). Saiu algo meio Phillip Glass hehe anotei os acordes e apartir da tonalidade defini as proporções do livro.
Eis o resultado

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Primeiras Tormentas

Postado em Making Of em agosto 11th, 2009 por Rafael

Após ter tido a idéia geral da aparência -principalmente da capa- passei a pensar na aparência interna.

Tinha vontade de que o livro contivesse ilustrações. Primeiro por gosto pessoal -sempre gostei de livros com figuras e até por isso gosto muito de desenhar- depois, porque isso corroboraria com a estética mais clássica e a carga de detalhe que almejava no projeto geral.

Isso me fez começar a relembrar o conteúdo do livro, na busca do conceito geral para as imagens e onde elas se encaixariam. Foi fácil de perceber que o livro não necessitava de ilustrações, o texto vive bem sem elas. Legal disso é que me dava oportunidade para utilizar as ilustrações para contar uma história paralela, expandir ou direcionar o sentido do texto. Ilustrações mais para intrigar do que para explicar.

O grande problema foi definir qual o conceito pras imagens! Pode parecer preguiça, mas é sério: até hoje não sei definir direito sobre o que o livro fala! É dificil pois ele fala vagamente sobre muitos assuntos; começou sem querer chegar a lugar nenhum; parou apenas por que me dei por satisfeito; eu vejo o que pensei enquanto escrevia mas não consigo ver se isso realmente fica explicito para quem lê; já percebi que cada um que lê se atém mais a uma parte e interpreta um sentido particular; eu como autor, me vejo alí de muitas formas.

Tanto é que em certo momento aquilo me parecia um livro de auto-ajuda, e cheguei até a fazer uma pesquisa de similares! E cogitei em vez de desenhos ilustrar os capítulos com fotos p&b!

Isso foi interessante e essa intimidade com o texto realmente esse passou a ser o conceito amplo. Afinal o livro são alguns raciocínios meus, apartir de experiências e vivências que eu tive. Não tem muitas outras pretensões além de expor meu modo de pensar. Esse conceito mantém-se até hj, mas como atualizar isso foi o verdadeiro desafio.

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Capítulo Zero

Postado em Making Of em agosto 10th, 2009 por Rafael

Pensei em adicionar as coisas aqui tentando seguir uma ordem cronológica, sei que vai ser difícil e nem pretendo me ater tanto à isso. A idéia tem mais a ver com ir relembrando e arquivando coisas.

Bom, não lembro ao certo a data, mas sei que foi bastante tempo depois que tinha dado o conteúdo do livro fechado. Acordei de madrugada com a idéia do livro, montadinho, atormentando a cabeça. Ele parecia uma bíblia, tinha um acabamento rebuscado, cantos com ponteiras de metal e tal hahaha. Mas tinha toda a idéia de como deveria ser feito. Como já aprendi que nessas horas o melhor a fazer é levantar e fazer algo, tomei nota de tudo o q estava pensando. O resultado foi esse rascunho.
É interessante ver que muitas idéias continuaram firmes até agora, mastb muita coisa mudou. Algumas coisas eram consideravelmente difícieis, como os 64 desenhos representando os 64 hexagramas, mas eu quase os fiz!
O espírito geral da coisa era transformar o objeto livro em algo mais sagrado, algo que criasse uma atmosfera de curiosidade, interesse e respeito (acho q o negócio da bíblia apareceu pq a biblia sempre foi um objeto q me inspirou respeito, e as vezes até medo), fora isso essa identidade também aponta para as coisas mais profundas do texto. Além disso outros dois fatores ajudavam a escolha de um layout rebuscado: primeiro que a noção do descartável precisa ser rapidamente revista, os objetos precisam ser feitos para durar, e as pessoas têm de perceber que é bom que eles durem. Segundo, que com o conteúdo do livro disponível na internet (já que nunca foi meu interesse ganhar dinheiro com isso) o livro em papel deveria oferecer algo mais, para despertar interesse de compra, e também numa pontinha de vontade de que as pessoas saíssem da tela por um tempo.

Embora hoje em dia eu mesmo não saia tanto, eu sei o quanto é valoroso dar uma volta por aí e olhar com carinho as coisas mais banais e corriqueiras.

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