Palpitando onde não fui chamado

Postado em Críticas, Filosofia de Buteco em janeiro 10th, 2012 por Rafael

Outro dia, meu amigo Victor Salciotti, me apresentou um post de outro amigo, o Eduardo Cuducos, debatendo o post de outro parceiro, o Fernando Galdino. Me sinto muito feliz por ter algum contato com essa turma de pensadores, pois os caras estão sempre em tópicos relevantes.

O assunto em questão era o uso do termo design thinking, ou a necessidade desse termo, visto que as premissas dessa prática se assemelhariam em muito com os princípios originais do Design. A coisa toda me lembrou uns papos da época de faculdade que resolvi expor aqui. Veja bem, diferentemente deles, não sou um pesquisador propriamente dito. Sou apenas um observador/questionador. O que quero mostrar é apenas um pensamento superficial, e deve ser encarado como tal.

À primeira vista, me identifico com a opinião do Cuducos. Se tomarmos a tradução de design defendida pelo Houaiss, e substituirmos em nossas conversas o termo design por “projética”, já ficaria bem mais fácil visualizar o pontencial interdisciplinar dessa “arte de projetar”.

Vejo um projeto como uma sequência de processos, com suas tomadas de decisões, insumos, etc, que culminam num produto concreto. E entendo que em várias áreas do design muitos processos são parecidos ou seguem um esquema semelhante. Parece haver um tipo de DNA nos projetos de design, que talvez seja essa abordagem do problema em parte “exatas” em parte “humanas”. Assim parece mais nítido que o objeto concreto final delimita a abrangência dos processos, personalizando aquele projeto.

tipos de design

design puro?

Como foi ressaltado no debate entre os dois, a sociedade, durante as últimas décadas, focalizou o termo design, no produto produzido. Por isso a grande quantidade de nomes como interior design, fashion design, game design e assim por diante. Alguns nomes como hair design, parecem realmente incomodar alguns designers. Quando tratávamos desse assunto na época da faculdade, uma abordagem simplista mas de certa forma didática que usávamos era virtualizar o produto final. Assim, as lacunas personalizáveis do projeto também ficariam em aberto, esperando para serem preenchidas com as características apropriadas ao produto a ser definido. Sei que é bobo, mas se tirarmos, o fashion, o furniture, o web, o que sobra é o Design. O que nos sobra é uma metodologia, ou ao menos um modo de pensar, passivo de ser utilizado para qualquer produto- e então novamente limitado.

E essa questão do nome é que é interessante, que parece ser o cerne da discussão entre os dois. Talvez, assim como temos Bioengenharia, Neuroarquitetura e outras coisas do tipo surgindo, ainda veremos também surgir uma miríade de novos “designs”. Mas na graduação, utópicos como éramos (ou somos), imaginávamos que nas próximas décadas, tudo seria design. A criatividade e interdisciplinariedade envolvidas nessa metodologia seria tão necessária que tudo demandaria design. E talvez ela fosse tão ubíqua que nada precisaria ter esse nome. Seria redundante. Imaginamos que o modo de pensar do design seria característica necessária e comum a vários profissionais, e que muitas outras áreas incorporariam as premissas à suas próprias metodologias.

Já me questionaram que se você tirar o produto concreto de uma metodoliga, ou não definir o espectro de produtos possíveis, você nao terá como distinguir o que sobra de outras práticas, como administração, antropologia e etc. Afinal, como definir o que é um sound designer e o que é um músico? Um ilustrador não é necessariamente um designer e um designer não é necessariamente um ilustrador, embora ambos possam fazer produtos da mesma natureza. Ou então imagine que alguém diga “não sou mecânico, sou médico de carros”. Podemos perceber sutilmente a diferença de perspectiva com relação ao produto, assim como conseguimos perceber quando nosso médico mais parece um “mecânico de gente”. Nesse ponto entendo que, embora os produtos sejam do mesmo tipo, a relação com o objeto do trabalho e as estratégias são essencialmente diferentes, e talvez os resultados tenham características distintas.

Mas o fato é que indefinição gera incerteza, que por sua vez traz insegurança. Por isso as pessoas sentem necessidade de delimitações, e portanto, de nomes. Nisso concordo com o Galdino. Mesmo que Design Thinking, possa ser um tipo de Design “puro”, talvez seja querer demais que a sociedade entenda isso após decadas vendo design como uma característica dos produtos, vide Kia Soul. Assim, um novo nome atende a algumas necessidades básicas de conforto e segurança, e obviamente, de novidade.

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Imperfeito

Postado em Críticas, Filosofia de Buteco em abril 10th, 2011 por Rafael

Estou lendo agora o Criação Imperfeita, do Marcelo Gleiser. Comecei com uma certa descrença, mas o livro é bem legal, gostei do jeito que ele escreve. Só achei que pra explicar a “bariogênese na transição de fase eletrofraca” ele usa uma metáfora meio tosca.

Ainda quero entender mais o ponto de vista dele, mas de certa forma eu até concordo. O que me incomoda um pouco são as críticas a um ideal de beleza e a Deus. Para mim, ele entra raso demais na questão “Deus” -não me parece satisfatório- e acho que a estética que ele tanto critica não é tão óbvia para o leitor comum, talvez para os cientistas. Claro que eu entendo que para uma grande parcela da população simetria = beleza = verdade = Deus = entidade consciente que arquiteta, orquestra, mantém e protege. Mas como para mim a equação não é tão simples, fico com a impressão de que esse tema aparece apenas para polemizar, meio Richard Dawkins.

Deixe-me tentar explicar o lance. Resumidamente o que acontece é que no começo do século os físicos começaram a estudar cada vez mais a física do muito pequeno (quântica, de partículas) por outro lado a física do muito grande (cosmologia) também fez avanços. Em certo ponto as duas se influenciam mutuamente, pois como já tratamos algumas vezes, padrões em escala influenciam eventos em escala macro. Além disso, pela teoria do Big Bang, o universo surgiu de eventos na escala micro, sendo necessária a compreensão da física de partículas associadas as leis da relatividade para entender seu desenvolvimento.

O Problema é que algumas mecânicas que funcionam em uma escala não servem para a outra, e a busca de alguns físicos tem sido encontrar uma Teoria da Unificação. Uma série de leis que sirvam para todas as escalas. Aí que começa o papo do “belo”, muitos acreditam que as leis precisam se unificar, mas movidos principalmente por um desejo “estético”, por achar que essa “falha” não é digna da Natureza. Vejamos a violação das simetrias. De certa forma, algumas operações físicas exibem um comportamento padrão, que permitiu aos cientistas, prever a existência de novas partículas. Tipo assim: uma partícula que tem certa carga, quando decair se transformará em duas partículas que somadas darão a carga inicial. Tomando isso como regra, os cientistas conseguem prever partículas que surgirão de uma determinada reação, mesmo que elas ainda não tenham sido descobertas. E em vários casos isso deu certo, foi o caso do Pósitron e de toda a antimatéria.

Nesse cenário é realmente difícil não ficar encantado com as possibilidades das simetrias. E aí sim o senso estético começa a falar mais alto. Assistam a esse vídeo do Garrett Lisi explicando a teoria de unificação dele. Cara, se um físico surfista que mora numa van e desenhou uma tabela periódica que lembra uma mandala tibetana estiver certo sobre a mecânica do universo, eu tatuo o E8 nas costas. (pessoas não copiem essa idéia, por favor haha e esperem pra ver se ele está certo antes!)

Difícil de engolir é que baseado nas simetrias, ele prevê a existência de mais 24 partículas novas! E tem sido difícil achar mesmo uma! Fazendo um paralelo com o Andar do Bêbado, penso sobre a nossa predisposição em identificar padrões. Tivemos até uma experiência no trabalho. Fizemos um jogo que tinha 4 bônus que apareciam aleatoriamente na sequência de perguntas. Como era de esperar, esses bônus tinham a mesma chance de aparecer que as outras perguntas, e por isso às vezes eles vinham em sequência mesmo, e isso não era desejável. Mesmo tendo feito o programa e sabendo que ele era randômico (até onde a função “random” permite) nós tivemos a impressão de que havia algo gerando um padrão. No caso do E8, minha preocupação é que parece que as falhas na simetria são indicadas pela visualização do gráfico de 8 eixos que Lisi cria com as partículas. Será que os dados realmente exibem esse padrão, ou a maneira que escolhemos para visualizá-los é que nos dá essa impressão?

Talvez ele até esteja certo, mas talvez nós nunca consigamos tecnologia suficiente para detectá-las, talvez as energias necessárias sejam próximas as de supernovas, coisa que seria impossível de rolar em laboratório.. sei lá, temos que ver o que vai sair do LHC. Enquanto isso vou lendo o resto do livro ^^ Tô de cara com um papo sobre quiralidade aqui…

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Academia?

Postado em Críticas em dezembro 28th, 2010 por Rafael

Como não passo muito por aqui, só vi outro dia que o Marcio Rocha, vulgo Marcinho, tinha feito uma crítica ao livro no blog dele. É uma crítica bem interessante, extensa e ácida como se espera de um cara como ele. Ele critica principalmente a maneira como eu escrevo, destacando minhas falhas ao fazer citações e ao que ele chama de “tentativas de soar acadêmico”.

Por algum motivo ele engloba as críticas numa idéia de que eu faço alguma afronta ao sistema academico ou ao método científico, não sei ao certo. Talvez isso remonte à época em que nos conhecemos, e que foi nosso único momento de contato real.

Era o Ndesign de Floripa, em 2007. Ele estava trabalhando numa tese de mestrado sobre a semiótica em Saramago, se não me engano, eu estava no terceiro ano da Graduação, e participava do evento com o Balaio Filosófico e tinha sido chamado para a mesa-redonda “Convivendo com Contradições”. Até hoje não entendo direito o que esperavam de mim lá. Ninguém da organização me conhecia pessoalmente, mas baseados em algumas coisas que estavam sendo comentadas na comunidade do balaio, me chamaram para falar com as doutoras Maristela Ono e Denise Portinari.

Uma coisa que ficou evidente nessa conversa, foram as diferentes formas de approach ahaha a Denise, citava as fontes de cada parágrafo que lia ou cada opinião que dava, e eu simplesmente falava com base em experiências pessoais e conexões que minha mente fazia no momento. Veja bem, estou dizendo que eram duas formas de se apresentar o que queria falar, não estou julgando se uma era melhor que a outra.

Também nessa época estava se discutindo muito reformas do curso e da profissão, e eu participava dessas discusões. Nós estávamos na efervecência das idéias e realmente discutiamos como os conceitos wiki, open e de conhecimento colaborativo poderiam evoluir os sistemas, entre eles a academia. Como respresentante discente, conheci o aparelho burocrático da faculdade e entendi os motivos de diversas convenções e normas, alguns eu concordo outros não.Então acredito que tenha se formado essa visão de mim como um ativista político-estudantil. Eu acredito, sim, que o sistema precisa de mudanças mas o livro não tem muito a ver com isso.

Outro pressuposto estranho é o de que eu e “outros” devemos ter sofrido censura por parte da Universidade e por isso nos rebelamos contra seus moldes. Na verdade, quem vem da Unesp de Bauru, deve concordar comigo que é o oposto. Nós podemos fazer TCCs em dupla, sobre comida, sem relatório, de bem mais de 20 minutos e de quase qualquer outra idéia que você tiver. As regras do papel simplesmente não são obstáculos e pouquíssimos professores nos impelem a seguir padrões e normas. No caso do livro, soma-se a isso a própria característica do texto. Ele não é um artigo científico, e eu tão pouco quis utilizar os rigores para escrevê-lo. Minha intenção era liberar o fluxo de idéias na mente, apenas.

O modo como me defendi, foi explicar que não saber citar pessoas ou o modo acadêmico de apresentar uma idéia não desqualifica aquela idéia. O que pode desqualificar são as falhas na lógica, fontes erradas, falta de critéirio e outros fatores que se encontram na base da idéia e não na apresentação dela. E meu livro não é isento à esse escrutínio de maneira nenhuma. Cabe ao leitor checar as fontes e as conexões que faço, assim como deveria checar qualquer autor.

Como contra-argumento, Marcinho disse que Van-Gogh sabia desenhar realísticamente se quisesse, e a professora dele, por não saber desenhar nada, dizia que fazia arte-abstrata. Mais uma vez, digo que não é a apresentação em si que desqualifica, e sim a análise dos processos anteriores. E se levássemos uma pessoa que nunca viu nada de Van-Gogh para comparar quadros dele com os abstratos da professora, e a pessoa acabasse gostando dos da professora? Ou se oferecêssemos à uma pessoa simples um quadro do Picasso e outro bem realista de algum desconhecido talentoso, e a pessoa se identificasse mais com o realista? O valor é relativo aos padrões que a pessoa espera encontrar.

O que gosto no retorno que tenho das pessoas sobre o livro, é que cada uma enxerga sentidos muito diferentes em tudo aquilo. Talvez seja como um horóscopo, como o I Ching, talvez, que diz algumas coisas abertas e o leitor se encarrega de completar as lacunas com a sua experiência pessoal.
Espero não acabar com essa “magia” mas, para mim, os pontos que tentei defender no livro são:

Pensamento amplo e abrangente porém crítico;

Valorização do sincero e do espontâneo;

Infundir amor e respeito em suas atitudes;

Acredito que meu modo de escrever e me espressar esteja em consonâcia com esses pontos. Como procuro ter um pesamento abrangente, não me firmo muito em verdades estabelecidas, gosto de conhecer outras propostas e explicações para qualquer coisa. Faço exatamente como protestou a Denise: fico “patinando superficialmente entre os conhecimentos” e confronto esses conhecimentos com meu próprio empirismo tosco, que vai aos poucos melhorando conforme me aprofundo mais aqui ou ali.

Como defendo o sincero e espontâneo, sou alguém que aprecia a imperfeição -talvez eu gostasse dos desenhos da professora assim como gosto das músicas do Sun Ra. Não que isso me estimule a fazer coisas mal feitas, mas gera o que muitas pessoas dizem a respeito de como eu escrevo: “parece que estou ouvindo você falando”.

Por acreditar que esses pontos anteriores são positivos quis compartilhar com outras pessoas, a fim de acrescentar algo bom para elas.
Por fim, esse livro ficou 3 anos sendo escrito beeem aos pouquinhos -escrevi ele totalmente sem pressa ou objetivo- escrevi porque gostava de escrever e porque queria registrar idéias que eu e meus amigos conversávamos na faculdade. Óbviamente muitas coisas mudaram nesse período, e por vezes pensei em reescrever ou suprimir trechos, adicionar coisas ou mesmo abandonar tudo. Em respeito e carinho à essa época, esses amigos e até mesmo à minha personalidade naquele momento é que dei cabo à publicação dele.

Pessoalmente, direciono essa crítica para meu relatório, que este sim gostaria de ter feito dentro dos moldes tradicionais. Concordo com o Márcio, sobre a validade e importância das metodologias científicas, de pesquisa e publicação. A padronização acelera a busca de informações, ajuda futuras pesquisas, dá credibilidade e solidez à seus argumentos. Sempre recomendo, a quem me pergunta algo nesse sentido, que se você pretende fazer algo de relevância acadêmica, se esforce para entender e aprender esses padrões. Mesmo que sua pesquisa seja para propor algo como a quebra deles haha.

Obrigado pelo post, Marcinho! Críticas são sempre bem-vindas!