Palpitando onde não fui chamado

Outro dia, meu amigo Victor Salciotti, me apresentou um post de outro amigo, o Eduardo Cuducos, debatendo o post de outro parceiro, o Fernando Galdino. Me sinto muito feliz por ter algum contato com essa turma de pensadores, pois os caras estão sempre em tópicos relevantes.

O assunto em questão era o uso do termo design thinking, ou a necessidade desse termo, visto que as premissas dessa prática se assemelhariam em muito com os princípios originais do Design. A coisa toda me lembrou uns papos da época de faculdade que resolvi expor aqui. Veja bem, diferentemente deles, não sou um pesquisador propriamente dito. Sou apenas um observador/questionador. O que quero mostrar é apenas um pensamento superficial, e deve ser encarado como tal.

À primeira vista, me identifico com a opinião do Cuducos. Se tomarmos a tradução de design defendida pelo Houaiss, e substituirmos em nossas conversas o termo design por “projética”, já ficaria bem mais fácil visualizar o pontencial interdisciplinar dessa “arte de projetar”.

Vejo um projeto como uma sequência de processos, com suas tomadas de decisões, insumos, etc, que culminam num produto concreto. E entendo que em várias áreas do design muitos processos são parecidos ou seguem um esquema semelhante. Parece haver um tipo de DNA nos projetos de design, que talvez seja essa abordagem do problema em parte “exatas” em parte “humanas”. Assim parece mais nítido que o objeto concreto final delimita a abrangência dos processos, personalizando aquele projeto.

tipos de design

design puro?

Como foi ressaltado no debate entre os dois, a sociedade, durante as últimas décadas, focalizou o termo design, no produto produzido. Por isso a grande quantidade de nomes como interior design, fashion design, game design e assim por diante. Alguns nomes como hair design, parecem realmente incomodar alguns designers. Quando tratávamos desse assunto na época da faculdade, uma abordagem simplista mas de certa forma didática que usávamos era virtualizar o produto final. Assim, as lacunas personalizáveis do projeto também ficariam em aberto, esperando para serem preenchidas com as características apropriadas ao produto a ser definido. Sei que é bobo, mas se tirarmos, o fashion, o furniture, o web, o que sobra é o Design. O que nos sobra é uma metodologia, ou ao menos um modo de pensar, passivo de ser utilizado para qualquer produto- e então novamente limitado.

E essa questão do nome é que é interessante, que parece ser o cerne da discussão entre os dois. Talvez, assim como temos Bioengenharia, Neuroarquitetura e outras coisas do tipo surgindo, ainda veremos também surgir uma miríade de novos “designs”. Mas na graduação, utópicos como éramos (ou somos), imaginávamos que nas próximas décadas, tudo seria design. A criatividade e interdisciplinariedade envolvidas nessa metodologia seria tão necessária que tudo demandaria design. E talvez ela fosse tão ubíqua que nada precisaria ter esse nome. Seria redundante. Imaginamos que o modo de pensar do design seria característica necessária e comum a vários profissionais, e que muitas outras áreas incorporariam as premissas à suas próprias metodologias.

Já me questionaram que se você tirar o produto concreto de uma metodoliga, ou não definir o espectro de produtos possíveis, você nao terá como distinguir o que sobra de outras práticas, como administração, antropologia e etc. Afinal, como definir o que é um sound designer e o que é um músico? Um ilustrador não é necessariamente um designer e um designer não é necessariamente um ilustrador, embora ambos possam fazer produtos da mesma natureza. Ou então imagine que alguém diga “não sou mecânico, sou médico de carros”. Podemos perceber sutilmente a diferença de perspectiva com relação ao produto, assim como conseguimos perceber quando nosso médico mais parece um “mecânico de gente”. Nesse ponto entendo que, embora os produtos sejam do mesmo tipo, a relação com o objeto do trabalho e as estratégias são essencialmente diferentes, e talvez os resultados tenham características distintas.

Mas o fato é que indefinição gera incerteza, que por sua vez traz insegurança. Por isso as pessoas sentem necessidade de delimitações, e portanto, de nomes. Nisso concordo com o Galdino. Mesmo que Design Thinking, possa ser um tipo de Design “puro”, talvez seja querer demais que a sociedade entenda isso após decadas vendo design como uma característica dos produtos, vide Kia Soul. Assim, um novo nome atende a algumas necessidades básicas de conforto e segurança, e obviamente, de novidade.

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One Response to “Palpitando onde não fui chamado”

  1. mugga Says:

    Essa necessidade por delimitações é bem aquela ideia de confundir a lua e o dedo: o profeta aponta a lua com o dedo e as pessoas viram as costas pra lua e ficam olhando o dedo.

    As pessoas se apegam ao significado. E a realidade, que muda toda hora, é ignorada. Tentam separar o ilustrador, o músico, o sound designer etc.
    Ficam numa masturbação filosófica em busca do “desig puro”, ao mesmo tempo vendo design em tudo, ao mesmo tempo tentando dar seus limites e dizer “isso é design puro”.

    Entrando na metalinguagem do “projetar um projeto” e confundem Design Thinking (o modo de pensar da projética) e Thinking Design (o projetar do pensamento), tentando engessar alguns conceitos naturalmente líquidos.

    Enquanto isso, ciências mais “rígidas” como engenharia vão se atualizando “malemolentemente” e fazem “semanas de engenharia” com palestras de títulos de investimento e administração e não só sobre “a resistência do tijolo baiano”. Não discutem se isso é ou não engenharia, só sabem que tem engenheiros (de monte) na presidência de empresas (e não administradores) e o ensino continua, sem se preocupar se isso é “engenharia do pensamento” ou administração.

    Assim como em História, dar nomes se torna útil para o que já foi: durante a idade média as pessoas não diziam estar na idade média o que possibilitou não se limitarem a agir como medievais e assim se desenvolverem.

    Acho os termos muito bons para refletir, poder olhar pra situação e entender como era o design e comparar com o que é(são) hoje em dia.
    Mas acho que pensar que com isso saberemos o design do amanhã é confundir a lua com o dedo.

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