Academia?

Postado em Críticas em dezembro 28th, 2010 por Rafael

Como não passo muito por aqui, só vi outro dia que o Marcio Rocha, vulgo Marcinho, tinha feito uma crítica ao livro no blog dele. É uma crítica bem interessante, extensa e ácida como se espera de um cara como ele. Ele critica principalmente a maneira como eu escrevo, destacando minhas falhas ao fazer citações e ao que ele chama de “tentativas de soar acadêmico”.

Por algum motivo ele engloba as críticas numa idéia de que eu faço alguma afronta ao sistema academico ou ao método científico, não sei ao certo. Talvez isso remonte à época em que nos conhecemos, e que foi nosso único momento de contato real.

Era o Ndesign de Floripa, em 2007. Ele estava trabalhando numa tese de mestrado sobre a semiótica em Saramago, se não me engano, eu estava no terceiro ano da Graduação, e participava do evento com o Balaio Filosófico e tinha sido chamado para a mesa-redonda “Convivendo com Contradições”. Até hoje não entendo direito o que esperavam de mim lá. Ninguém da organização me conhecia pessoalmente, mas baseados em algumas coisas que estavam sendo comentadas na comunidade do balaio, me chamaram para falar com as doutoras Maristela Ono e Denise Portinari.

Uma coisa que ficou evidente nessa conversa, foram as diferentes formas de approach ahaha a Denise, citava as fontes de cada parágrafo que lia ou cada opinião que dava, e eu simplesmente falava com base em experiências pessoais e conexões que minha mente fazia no momento. Veja bem, estou dizendo que eram duas formas de se apresentar o que queria falar, não estou julgando se uma era melhor que a outra.

Também nessa época estava se discutindo muito reformas do curso e da profissão, e eu participava dessas discusões. Nós estávamos na efervecência das idéias e realmente discutiamos como os conceitos wiki, open e de conhecimento colaborativo poderiam evoluir os sistemas, entre eles a academia. Como respresentante discente, conheci o aparelho burocrático da faculdade e entendi os motivos de diversas convenções e normas, alguns eu concordo outros não.Então acredito que tenha se formado essa visão de mim como um ativista político-estudantil. Eu acredito, sim, que o sistema precisa de mudanças mas o livro não tem muito a ver com isso.

Outro pressuposto estranho é o de que eu e “outros” devemos ter sofrido censura por parte da Universidade e por isso nos rebelamos contra seus moldes. Na verdade, quem vem da Unesp de Bauru, deve concordar comigo que é o oposto. Nós podemos fazer TCCs em dupla, sobre comida, sem relatório, de bem mais de 20 minutos e de quase qualquer outra idéia que você tiver. As regras do papel simplesmente não são obstáculos e pouquíssimos professores nos impelem a seguir padrões e normas. No caso do livro, soma-se a isso a própria característica do texto. Ele não é um artigo científico, e eu tão pouco quis utilizar os rigores para escrevê-lo. Minha intenção era liberar o fluxo de idéias na mente, apenas.

O modo como me defendi, foi explicar que não saber citar pessoas ou o modo acadêmico de apresentar uma idéia não desqualifica aquela idéia. O que pode desqualificar são as falhas na lógica, fontes erradas, falta de critéirio e outros fatores que se encontram na base da idéia e não na apresentação dela. E meu livro não é isento à esse escrutínio de maneira nenhuma. Cabe ao leitor checar as fontes e as conexões que faço, assim como deveria checar qualquer autor.

Como contra-argumento, Marcinho disse que Van-Gogh sabia desenhar realísticamente se quisesse, e a professora dele, por não saber desenhar nada, dizia que fazia arte-abstrata. Mais uma vez, digo que não é a apresentação em si que desqualifica, e sim a análise dos processos anteriores. E se levássemos uma pessoa que nunca viu nada de Van-Gogh para comparar quadros dele com os abstratos da professora, e a pessoa acabasse gostando dos da professora? Ou se oferecêssemos à uma pessoa simples um quadro do Picasso e outro bem realista de algum desconhecido talentoso, e a pessoa se identificasse mais com o realista? O valor é relativo aos padrões que a pessoa espera encontrar.

O que gosto no retorno que tenho das pessoas sobre o livro, é que cada uma enxerga sentidos muito diferentes em tudo aquilo. Talvez seja como um horóscopo, como o I Ching, talvez, que diz algumas coisas abertas e o leitor se encarrega de completar as lacunas com a sua experiência pessoal.
Espero não acabar com essa “magia” mas, para mim, os pontos que tentei defender no livro são:

Pensamento amplo e abrangente porém crítico;

Valorização do sincero e do espontâneo;

Infundir amor e respeito em suas atitudes;

Acredito que meu modo de escrever e me espressar esteja em consonâcia com esses pontos. Como procuro ter um pesamento abrangente, não me firmo muito em verdades estabelecidas, gosto de conhecer outras propostas e explicações para qualquer coisa. Faço exatamente como protestou a Denise: fico “patinando superficialmente entre os conhecimentos” e confronto esses conhecimentos com meu próprio empirismo tosco, que vai aos poucos melhorando conforme me aprofundo mais aqui ou ali.

Como defendo o sincero e espontâneo, sou alguém que aprecia a imperfeição -talvez eu gostasse dos desenhos da professora assim como gosto das músicas do Sun Ra. Não que isso me estimule a fazer coisas mal feitas, mas gera o que muitas pessoas dizem a respeito de como eu escrevo: “parece que estou ouvindo você falando”.

Por acreditar que esses pontos anteriores são positivos quis compartilhar com outras pessoas, a fim de acrescentar algo bom para elas.
Por fim, esse livro ficou 3 anos sendo escrito beeem aos pouquinhos -escrevi ele totalmente sem pressa ou objetivo- escrevi porque gostava de escrever e porque queria registrar idéias que eu e meus amigos conversávamos na faculdade. Óbviamente muitas coisas mudaram nesse período, e por vezes pensei em reescrever ou suprimir trechos, adicionar coisas ou mesmo abandonar tudo. Em respeito e carinho à essa época, esses amigos e até mesmo à minha personalidade naquele momento é que dei cabo à publicação dele.

Pessoalmente, direciono essa crítica para meu relatório, que este sim gostaria de ter feito dentro dos moldes tradicionais. Concordo com o Márcio, sobre a validade e importância das metodologias científicas, de pesquisa e publicação. A padronização acelera a busca de informações, ajuda futuras pesquisas, dá credibilidade e solidez à seus argumentos. Sempre recomendo, a quem me pergunta algo nesse sentido, que se você pretende fazer algo de relevância acadêmica, se esforce para entender e aprender esses padrões. Mesmo que sua pesquisa seja para propor algo como a quebra deles haha.

Obrigado pelo post, Marcinho! Críticas são sempre bem-vindas!

Coincidência ou não

Postado em Filosofia de Buteco, Sem categoria em dezembro 25th, 2010 por Rafael

Aconteceram algumas coisas interessantes (para a minha imaginação fértil apenas) que me fizeram querer escrever por aqui de novo. Apenas coisas banais, que minha cabeça começou a relacionar.

Uma vez minha professora de Sociologia ficou visivelmente irritada, quando eu comentei numa discussão que a internet parecia ajudar a enxergar que o comportamento humano numa escala macro parece um cardume de peixes. Eu quis dizer que é engraçado ver as tendências, as modas pegando, e a internet parece ajudar a visualizar esse processo. Acho que se eu tivesse colocado dessa maneira ela não teria ficado nervosa. De qualquer forma, lembrei disso outro dia quando estava procurando algum vídeo bobo na internet e achei o Joel Santana Auto-tune.

Na hora, me lembrei que o Pedro Oliveira, tinha comentado sobre “auto-tunes” muito tempo atrás. O Pedro é o cara que, pra mim, sempre esteve na vanguarda do que viria a ser moda. Ele me mostrou o twitter tanto tempo antes de o negócio pegar, que eu simplesmente não entendia para o que aquilo podia servir. Como na vez do twitter, nem prestei atenção do negócio dos “auto-tunes” na época e só agora resolvi checar. Achei engraçado, vi mais alguns relacionados, dei risada e depois fui ver TV. Para a minha surpresa, a mensagem de encerramento do fantástico era um auto-tune com os globais e a música que encerrou o Pânico na TV era o auto-tune do Zagallo!

Eu não sei se isso é uma modinha, se vai aparecer mais vezes ou não. O interessante foi a coincidência. Tanto de ter visto na TV o que eu tinha visto no youtube, quanto de mais uma vez o Pedro ter sido “profético” haha. Lembrei também de uma vez, quando era pequeno, ouvir minha vó usar a palavra “ensejo”, e de perguntar o significado dela, pois não conhecia. Naquela mesma semana ouvi ou li “ensejo” em vários lugares. Não acho que seja coincidência, acho que é aquele negócio de você descobrir uma coisa e aí sim conseguir achar ela por aí. Tipo, acho que nunca tinha reparado o quanto se usa Monotype Corsiva por aí até ter usado ela num trabalho. Mas ainda no assunto das coincidências, quando cheguei aqui em Itanhaém, meu irmão estava abrindo a Superinteressante do mês que vem (jan 2011, 287), que fala sobre Destino.

Comecei a ler a matéria, mas ainda não terminei. De qualquer forma, ela começa falando que nosso cérebro tem um defeito genético que nos faz procurar sentido em tudo. E logo em seguida diz algo como “você vai entender do que estou falando, Rafael”. O autor completa dizendo que se o leitor se chama Rafael, ele provavelmente se sentirá especial. Bom, eu me chamo Rafael, e por mais que eu estivesse ciente de que ele estava brincando com probabilidades, tenho que admitir que é difícil não ficar intrigado. Até o terceiro ano de faculdade, eu nunca tinha sido o único Rafael da classe, então não deveria estranhar, mas não é o que acontece no primeiro contato com uma coincidência.

Para completar, ganhei de presente o livro “O Andar do bêbado-como o acaso determina nossas vidas“, de Leonard Mlodinow. Nada aleatório, já que eu pedi ele na nossa listinha, assim como também não acho estranho o fato de ter ganhado dois dele! O livro fala justamente sobre aleatoriedade  e discute a nossa dificuldade nata de interpretar eventos não-correlatos. Parece bem interessante e divertido. Vou ler os dois, a matéria e o livro, e depois tento compartilhar o que achei. ^___^

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